Q151475
EDUCA - 2020 - Prefeitura de Cabedelo - PB - Professor de Educação Básica II - História
Ano: 2020
Órgão:
Prefeitura de Cabedelo - PB
Banca:
EDUCA
Matéria:
História
Assunto: História do Brasil
Leia o texto abaixo:
“A Escravidão é de fato a Desigualdade Radical por
excelência. Com a Escravidão — principalmente se
o escravo estiver sujeito a todos os rigores que a
Escravidão potencialmente lhe impõe, ao passo em
que neste caso o Senhor estará em pleno exercício
de todos os seus poderes e privilégios relacionados à posse do escravo — podemos dizer que este
escravo estará privado de tudo, de todos os seus
direitos sobre si. No início da Idade Moderna,
difunde‐se muito uma releitura de certas passagens
bíblicas como o notório episódio da “maldição de
Cam”. Trata‐se de associar à Desigualdade
Escrava, relida como Diferença Escrava, uma
Diferença Negra que será reconstruída desde os
tempos da expansão europeia em direção ao Novo
Mundo.”
Com base na conceituação de Escravidão descrita
acima, para a antiguidade e para os tempos
modernos, podemos afirmar que:
1. Os hilotas correspondiam, na Grécia Antiga, a
populações ou grupos de populações submetidas
pelos espartanos e obrigadas, a partir daí, a uma
forma específica de trabalho compulsório. Uma
de suas características essenciais é que eles eram
dependentes coletivos, em contraste, por
exemplo, com o escravo ateniense do período
clássico, que via de regra estava preso a um
destino individual de dependência. Enquanto o
hilota insere‐se em um grupo “escravizado” por
uma comunidade de senhores, já o “escravo”
propriamente dito passa a pertencer a um
indivíduo: ele é propriedade de alguém.
2. A estratificação social no Brasil Colonial
fundou‐se precisamente no deslocamento
imaginário da noção desigualadora de
“Escravo” para a coordenada de contrários
fundada sob a perspectiva da diferença entre
homens livres e escravos. Nesta perspectiva, um
indivíduo não está escravo, ele é escravo, e toda
a violência maior do modelo de estratificação
social típico do Brasil Colonial esteve alicerçada
neste deslocamento, nesta estratégia social
imobilizadora que transmudava uma
circunstância em essência. É digno de nota que
os abolicionistas tenham se empenhado
precisamente em reconduzir o discurso sobre a
Escravidão para o plano das desigualdades.
3. A racialização da escravidão na ótica moderna,
implica em que a escravidão possa ser vista
como uma diferença coletiva. Não seriam certos
indivíduos de natureza humana deficiente, como
propunha Aristóteles, que deveriam estar
destinados à escravidão, mas sim um grupo humano específico, que traria na cor da pele os
sinais de uma inferioridade da alma, mas que
podem adquirir sua liberdade pela comprovada
natureza humanística da raça, nestes termos, a
superação da inferioridade da cor da pele dá
lugar a concepção de cidadania ampliada com o
discurso republicano e positivista no Brasil.
4. O discurso de uma diferença negra
inextricavelmente acompanhada de sua segunda
natureza, que seria a diferença escrava, desponta
desde o início da modernidade europeia, como o
aparato ideológico que sustenta todo um
comércio de escravos. Ainda que tenha
enfrentado críticas, mesmo no período de
vigência do tráfico negreiro, isto não impedirá
que a prática escravista da exploração da mão‐
de‐obra africana encontre a mais ampla difusão.
Justificada apenas pela concepção de que
espanhóis e portugueses não eram os primeiros
a se utilizarem da mão-de-obra escrava africana.
5. A Desigualdade Escrava, relida como Diferença
Negra, foi reconstruída desde os tempos da
expansão europeia em direção ao Novo Mundo.
No cadinho de formação do Escravismo
Colonial, interessou a traficantes e senhores
coloniais a desconstrução de uma série de
diferenças étnicas africanas, com vistas à
construção de uma Diferença Negra no interior
da qual todas as etnias pré‐existentes no
continente africano se misturam. Portanto,
associar Escravidão e Diferença Negra será uma
pedra de toque para o Escravismo Colonial, e
para o concurso desta construção discursiva não
faltaram contribuições que se mostravam
indiferentes à escravização de povos africanos.
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